quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Eu abro o meu guarda roupa e me lembro do meu casaco de neve que ajudei o velhinho que não enxergava subir o zípper, ajeitei o gorro por cima do boné, pronto! Ele precisava estar quentinho, e não bonito. Mesmo assim o agasalho vermelho e cinza melhorou muito a magreza e deu-lhe estilo.Eu sou apegada com as coisas, roupas velhas e quinquilharias. E demorei bastante até vestir o velhinho com este agasalho que agora meu, ja levara minha filha pra escola, eu gostava dele, mas não usava, porque justamente ficava rechonchudinha.Mas eu não sou de dar nada.
Bom é quem dá o que não tem,dar o excesso é simplesmente o lógico.Coleciono coisas e bugigangas, principalmente as velhas, e com a falta de dinheiro me acostumei aos velhos trapos como travesseiros do corpo, são nos velhos moletons que mais me ajeito, me aconchego. E se foi da minha filha então me agarro uso mesmo, parece pele em mim, um pouco dela perto, o cheiro incorporado, eu uso as coisas velhas da minha filha como quem sofre um carinho, como quem sente a saudades aconchegada, entre os membros.É tudo meu e não gosto sequer de emprestar a alguém.Mas aquele velhinho meio cego, na garoa. Que eu não sabia se tremia de fraqueza ou de fome,era tão meigo.Disse que semente na sua mão se espalhava e brotava tudo, sentia-se tão próximo de um Deus que eu não aceito, afinal, ele poderia mesmo ser meu avo, eu fiquei tão triste de ver a chuva cair pra saber que aquele agasalho no meio do temporal pouco adiantou.
- Eu não bebo!Obrigada.Pode me fazer um café, to com a cabeça até doendo...
Não sei se fora o mau cheiro era ou não hálito de bebida ou de quem não comia a dois dias, vai saber?Comeu devagar, como quem não está acostumado ao prato quente.Sentiu-se num restaurante quando perguntei se queria mais pediu para levar.
E uma garrafinha com o café, por avor. Saiu com o café como tesouro: está quentinho.
Talvez o que ele precisasse mesmo, era bebado ou não, sentir-se tratado como gente, como o avo que de fato poderia ser.
Ele chorou.Nunca vou me esquecer...eu mentirosa, disse que poderia ser meu avo,sem graça na despedida...me abençoou.
Eu não deixaria meu avo na rua nunca!!!...
Enquanto foi embora cambaleante, eu que nem queria abrir a porta, agora não queria me despedir assim, ve-lo seguir completamente desamparado, (sem ter pra onde ir?!)é noite, está garoando, faz frio.
Alguns acham que por fazer uma coisinha podem ser considerados bons. Que eu sou "boa".Hahahaha.Eu não sou boa, tenho até medo de gente boa, nunca conheci nenhuma de perto, vivemos entre excessos,protegidos nas nossas zonas de conforto, somos pessoas razoavelmente aceitáveis.Bom não é quem se liberta dos excessos, que dar o que nos sobra é mais que obrigação, chega a ser lógico!
Bom é gente como este velhinho praticamente cego,desabrigado, solitário, completamente desvalido ... que agradece e acredita num Deus e em pessoas que como eu lhe chama de avô enquanto vira-lhe as costas.
E de pessoas como ele, tenho medo.

Renata Koury

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