sábado, 17 de novembro de 2012

Bateu na minha porta,com toda a força,como é o costume daquela velhinha.Parece um gravetinho,de tão magra.Mas como bate na porta!!!!( destes que são maleáveis e não quebram nunca.Bem,só assim pra ser catadora de reciclagem e criar as duas meninas suas netas de uma filha deficiente e outra perdida:Olha o que eu recebi.Eu já sabia!E me mostrou um papel:-To indo pro fórum!(Ela não fala;grita!acho que
nunca foi escutada...resolveu apelar,e força esganiçada na garganta,toda magoa,todo cansaço)Era um atestado de óbito.-vinte e sete anos,Renata.Eu escondo a tristeza das menina.Ele usava craque,roubava a gente,ia preso,eu não podia com ele,Renata...
Que vou dizer?Senti raiva!Merda!Que dizer?!
-É muito difícil,eu disse.Mas sabe,acho que voce pode dividir a dor com os seus pedaços...elas vão entender.
-Elas vão?...sim,são minhas companheiras,não é?
-Sim...Elas vão saber que mesmo sendo tão valente,ficamos tristes,(da pior tristeza talvez,que é perder um filho para o crack e para a delinquencia,enfim:perder um filho.Isso de perder um filho é tristeza o que basta.Não importa o motivo.Não importa que tivesse a feito sofrer tanto que me confessava quase um alívio...)
-Ele descansou,néh?
-Sim.Se libertou.
Ela foi embora quase feliz,ganhou coisas novas.
-As meninas guardam no guarda roupa pra não gastar as bonecas...
-Diga a elas pra usar!
-Eu digo.Despois elas não vão mais ser meninas,não é?
(Quando foram?)...Devem guardar no guarda roupa como uma felicidade de um mundo inteiro,aquelas meninas para quem papai noel não existe,muito menos um de verdade.Só a avó.(que está por um triz,diga-se de passagem...)

...Eu não sei o que é mais difícil para aquela senhora...lutar ou fingir forças que tira de onde não tem.

Renata Koury

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