quinta-feira, 21 de junho de 2012

As formiguinhas

Vinha na frente um menino magrinho cheio de sacolas,mulatinho,todo encurvado do peso das sacolas,andava uns 15 metros,como podia,e parava derrubado pelo peso,caía ao chão derrotado e ali ficava uns minutinhos.
Logo depois era alcançado por um garoto ainda menor e mais franzino,que vinha o seguindo valente se equilibrando no peso das sacolinhas.
Vi a operação se arrastar e se repetir várias vezes e sem vontade nenhuma ofereci carona,cheia de preguiça de domingo e ajudei os meninos carregarem as muitas sacolas até o carro,tinham feito a "xepa " pra mãe,que tava no hospital com o irmãozinho mais novo,que tinha sopro no coração.
Reforcei a comprinha deles com umas coisinhas de casa,larguei os meninos pra lá no fim do mundo na vila paineiras e voltei admirada com as crianças,tão educadinhas,tão esforçadas,tão miseraveis e ainda gastando os dentes no sorriso indo de carro pra casa,pura festa...Faz tempo,muito tempo,tem uns meses que isto aconteceu.Hoje de ônibus na volta da faculdade,lotado,de pé,a senhorinha que dava os peitos murchos(e a sensação era de que o menino mamava seus ossos),ouvia atenta e sorridente a conversa minha com a Ana Lúcia,amiga de infância,numa hora não aguentou e soltou o verbo:
-Puxa,eu tenho cinco filhos,e o mais velho apareceu com uma cachorrinha,trouxe aqui de marília escondida no ônibus até Garça,tinha encontrado na rua,mandei abandonar aonde buscava o leite,disse que era pequenina,alguém ia gostar,nós não tínhamos comida ou nada para cuidar dela,alguém iria simpatizar,obriguei a criança.Mas passou o fim de semana e quando o menino foi buscar o leite na segunda,a pobrezinha estava lá,exatamente aonde ele deixou,disseram que não saiu pra beber nem procurar comida,ficou praticamente imóvel esperando meu filho voltar:não aguentei,e mesmo sem poder,adotamos!
E contou mais história da cachorra vira lata que pra defender o sobrinho enfrentou um pitybull enquanto o rapaz maldoso,dono do cachorro ria muito,ninguém sabe como sobreviveu.-Não é que eu não gosto dos bichos,mas eu não tenho dinheiro pra cuidar,se defendeu.Disse que tinha levado o filho pra operar,mas como ele tava resfriado,não deu,precisou adiar.
Bem,eu tava com o carro na rodoviária,e como minha carta venceu e ainda não tive tempo de renovar,só tirei da garagem hoje porque em meio ao dilúvio que rola, chegaria encharcada na faculdade,tava lá nos esperando,arrisquei guiar até a casa dela uma carona, atravessei a cidade para que seu filho resfriado não piorasse.Fomos nós,eu e dona Luciana com seu filho de colo mais os anjos guardando nossas costas.aiaiai.
Proseando que estava estudando para ser professora,e da importância de estudar,ela me dizendo que seus filhos faziam todos os cursos gratuítos que aparecia,elogiando:
- Cada coisa que comem na escola:arroz,feijão,carne!!!!!Comem cinco vezes por dia!
E que conta para os filhos que passou muito perrengue,sua casa com a mãe era de plástico,na favela de garça(voce conheceu?)se era calor esquentava muito,e quando chovia como hoje o choque térmico arrebentava o teto,e eram ela e os mais novos embaixo da mesa,enquanto o irmão passava a noite segurando as pontas da casa para que ela não saísse voando,e pra comer era farinha com açúcar,não tinha água encanada,e o carro pipa abastecia duas vezes por semana,e não tinha banheiro,e na colheita eles passavam apertado,e era só um lápis uma borracha e um caderno,ninguém ganhava material escolar do governo,eu levava um saquinho de arroz branco pra comer quando dava,que também não tinha merenda,eu digo aos meus filhos:
Agora é tudo fácil!!!!
Chovia de não enxergar um palmo,e meu coração se doendo com aquela mulher tão batalhadora.A cesta básica chegava dia 2,depois passou pro dia dez.Não chegou até hoje,este mes...
Mas não tava reclamando,era apenas um assunto,logo teriam o que comer,que a colheita esse ano tava prejudicando o marido ganhar algum...só chove!Sempre entre sorrisos faltando dentes,boa vontade no olho mais que velho,carcomido de sol e pele em volta da pele que era jovem,mas gasta.
Chegamos!!!!
-Nossa!não acredito!Eu conheço sua casa e dois dos seus filhos,puxa,eles são encantadores,parabéns,Luciana!
-Óia!Então foi voce que "troci "eles pra casa no dia da feira?
-Sim.E eles me disseram que estavam" ajudando mãe que tava de internação com o bebe no hospital .
-Era mesmo para sermos amigas,disse emocionada,na despedida.
E fui embora enternecida com estas pessoas tão sofridas.
Puxa...nem acredito que em meio a tempestade,fui parar na casa dos meninos formiga!As palavras da mãe ecoando na minha alma:
-Agora é tudo fácil,digo pra eles.Estamos cheios de oportunidades,é só aproveitar:tá tudo fácil!!!!!!

...Fácil?!
Queria ter a sua garra,mamãe formiguinha.

Renata Koury

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